terça-feira, novembro 15, 2011

Esse jeito.


-É que eu sou desse jeito mesmo.
-De que jeito?
-Assim, com uma timidez meio frouxa, uma língua meio sem nós, uma cara de pau meio de plástico, uma coragem por um triz, uma sinceridade que machuca mesmo sem querer.
-E é grossa também, um bocado grossa.
-Eu sei, eu sei, não sou uma boa pessoa, falo baixo, tramo demais, quero tudo do meu jeito, quebro corações e o pior de tudo, o que me faz ser uma pessoa não muito boa, deixo que quebrem o meu coração.
-Tu tá querendo me dizer que é frágil?
-Não, não. Tô querendo te dizer que to bem protegida, que a barreira tá erguida, que eu falo baixo mas se tiver de gritar, eu grito. Tô querendo dizer também que eu acabo ficando aos pedaços sempre que machuco alguém mas que não é por isso que vou deixar que me machuquem de graça.
-Então tu quer dizer que é forte?
-Também não.
-E o que tu quer dizer?
-Eu quero dizer que eu tenho medo, apesar de tudo, que eu tenho vontade de chorar também, que eu to bem protegida sim mas que isso não quer dizer nada, eu preciso dizer que eu quero dizer várias coisas, quero dizer que não quero nada disso.
-Dá pra parar de chorar e respirar, garota? Levanta essa cabeça, bebe aqui um gole d'água.
-Sabe o que eu quero mesmo? Quero é um fim de tarde, um pôr-do-sol bem alaranjado, daqueles que te faz olhar pro céu e dizer: Deus, eu sei que você existe. E dar um sorriso desses bem largos.
Quero um começo de manhã com um bom dia cheio de energia que no lugar de me tirar a paz me acrescente. Quero um café depois do almoço, daqueles com cheiro de casa da avó e um abraço daqueles de quem sentiu saudade. Isso não deve ser querer demais.
-Isso é coisa de criança, garota.
-É, acho que é esse o meu jeito, apesar de tudo. Eu tenho é jeito de criança.
E ela deu as costas pra ele, deu um nó com as pontas do vestido entre as pernas e começou a correr, parou um pouco a distancia e o olhou, sorriu e acenou, tirou as sandálias de couro e prendeu-as no pulso, respirou fundo e continuou a correr pra algum lugar onde pudesse ser realmente criança.

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